O fim que não grita: reflexões sobre o amor que adormece



Há amores que morrem de forma barulhenta  entre gritos, portas batidas e promessas partidas ao meio. Mas há outros que simplesmente adormecem. Continuam ali, ocupando a casa, partilhando o mesmo café, dividindo silêncios. E é justamente nesses que mora a complexidade mais sutil do afeto humano: o amor que não explode, apenas esvazia.

A filosofia sempre buscou entender o amor como potência. Para Platão, ele era desejo de completude; para Kierkegaard, uma escolha cotidiana;para Simone de Beauvoir, um projeto entre sujeitos livres. E talvez seja aí que muitas relações se percam: quando deixam de ser projeto em comum para se tornarem prisão silenciosa.

O erro, muitas vezes, não está em deixar de amar  mas em continuar ao lado de alguém por medo, por conveniência, por gratidão ou por culpa. Como se o bem que se fez um dia obrigasse à permanência eterna. Como se ter um filho fosse um contrato vitalício com a falta de desejo.

Mas ninguém deve sua vida ao passado. O amor verdadeiro não exige cativeiro, mas liberdade. E reconhecer que ele se foi é, paradoxalmente, um ato de amor por si e pelo outro. Não é egoísmo desejar espaço, silêncio, reconstrução. É ética consigo mesma. É cuidado. É uma forma de honrar o que houve, permitindo que ambos sigam talvez para novos amores, ou apenas para uma vida mais leve.

O amor, quando não mais se reconhece no toque, no olhar, na linguagem do corpo, vira memória. E tudo bem. Amar, no fim, é também saber partir com dignidade.

Porque continuar sem presença, sem desejo, sem verdade, é trair não apenas o outro  mas a si mesmo. 


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