Detalhes de si a moral de uma pandemia

 


Lembro-me, durante a pandemia, de caminhar por uma rua quase deserta no centro da cidade. O silêncio era cortado apenas pelo som distante de um motor . As fachadas estavam fechadas, algumas já descascadas pelo abandono. Foi então que um muro chamou minha atenção: nele, um grafite retratava uma figura encapuzada, com o corpo projetado para frente e a mão cobrindo o rosto, no gesto típico de um espirro. Ao lado, em letras nítidas: ATCHIM! e, mais adiante, o ano: 2020.

A cena era simples, mas carregada de camadas. O espirro, gesto tão banal, havia se tornado símbolo de risco e medo coletivo. A tinta preta sobre o fundo gasto dialogava com a própria precariedade do momento: ruas vazias, olhares desconfiados, vidas suspensas. Naquele instante, compreendi que aquele grafite não era apenas arte de rua  era também registro histórico e denúncia, um lembrete de que, mesmo nas superfícies mais ásperas e esquecidas, a arte insiste em falar.

A arte, em grande parte de suas manifestações, dialoga com fatos reais  seja refletindo acontecimentos históricos, seja interpretando experiências coletivas ou individuais. Quando incorporados à obra, esses elementos tornam-se registros que, além de preservarem legados artísticos distintos, permitem reflexões e respostas para questionamentos do passado e do presente.

Seja qual for a reação despertada  emocional, crítica ou psicológica , ela parte, antes de tudo, do próprio indivíduo, mesmo que tenha origem em um único objeto ou expressão artística. Nesse sentido, a arte pode se tornar uma fonte importante de consolo e resiliência em tempos de crise, como se observou durante a pandemia da Covid-19.Não se trata, portanto, de reduzi-la a uma função meramente utilitária, mas de reconhecer seu potencial para ampliar nossas possibilidades de enfrentamento de situações-limite, como a proximidade da morte, a solidão, a ausência de respostas para o futuro e os impactos de fenômenos sociais como o individualismo e a desigualdade econômica.

Essa dimensão existencial da arte conecta-se à reflexão de Zygmunt Bauman sobre a “arte da vida”. O autor observa que o século XX marcou a transição de uma sociedade de produção para uma sociedade de consumo, e que viver de forma plena exige, como qualquer processo criativo, estabelecer desafios que, à primeira vista, parecem inatingíveis:“Precisamos tentar o impossível. E, sem o apoio de um prognóstico favorável fidedigno (que dirá de certeza), só podemos esperar que, com longo e penoso esforço, sejamos capazes, algum dia, de alcançar esses padrões e atingir esses alvos, e assim mostrar que estamos à altura do desafio” (BAUMAN, 2009, p. 31).

No entanto, vivemos também um processo de fragmentação das relações humanas, que enfraquece o pensamento comunitário. Durante a pandemia, em que recursos e prioridades foram distribuídos de forma desigual, divisões sociopolíticas determinaram, em muitos casos, quem teria acesso à proteção e quem ficaria vulnerável. Nesse cenário, a “guerra invisível” travada contra o vírus evidenciou, de forma dolorosa, comportamentos humanos marcados pelo egoísmo, pela disputa por recursos e pela fragilidade das redes de solidariedade.

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