Amizades Liquidas: sobre vínculos frágeis na era digital





Zygmunt Bauman, ao falar sobre os vínculos humanos na modernidade líquida, observou que “as conexões são mantidas enquanto oferecem prazer e são rompidas quando deixam de ser satisfatórias”. Essa lógica, herdada do consumo, contaminou também as relações de amizade: há quem confunda a solidez do vínculo com a frequência das respostas, como se o afeto fosse uma linha de produção capitalista na qual somos obrigados a cumprir metas. Espera-se que estejamos sempre à disposição do desejo imediato.

Mas a amizade, no seu sentido mais profundo, não se mede pelo tempo de retorno, e sim pela confiança silenciosa de que o outro existe para além do nosso campo de visão. A presença física ou digital não é a única prova de cuidado às vezes, é na ausência que a maturidade do vínculo entre indivíduos se revela. Vivi uma experiência desagradável com uma colega de trabalho que me chamava frequentemente de “amiga” e, por um tempo, acreditei. Respondia constantemente às suas mensagens, mantendo contato diário. Contudo, no ano seguinte, quando já não trabalhávamos juntas e minha rotina havia mudado, percebi o quanto a relação era sufocante. Recebia mensagens carregadas de cobrança por atenção, chantagens emocionais nos momentos em que ela não estava bem e, frequentemente, suas frustrações eram despejadas sobre mim.

Essa pessoa conhecia apenas uma camada superficial de meus gostos expostos nas redes sociais, como música, arte, cinema e leituras e acreditava que isso era suficiente para definir minha essência. Ignorava, no entanto, meus sentimentos mais profundos. Não sabia discernir quando eu estava alegre ou triste. Não compreendia  o fato de eu ser mãe de um bebê e ter dupla jornada de trabalho . Professora, mãe  e dona de casa. Criou um rótulo sobre o tipo de amiga que ela esperava que eu fosse, baseado mais em suas próprias necessidades do que na realidade. Com o tempo, surgiu uma constante necessidade de me envolver em programas que não lhe agradavam, mas que, de algum modo, ela julgava que eu seria “útil” para conduzir o passeio e tirar fotos, para suas postagens.  Muitas vezes, esses momentos serviam apenas para registrar selfies ou gerar postagens, como se o vínculo precisasse ser alimentado para a plateia digital, sem perceber a pessoa que estava ao seu lado. Eu era, na prática, um suporte emocional unilateral, sustentando uma relação desequilibrada, invisível e, com uma pessoa tóxica.

Só percebi a profundidade dessa assimetria quando, diante de uma situação em que sofri racismo eu, que sempre fui engajada em temas étnico-raciais e feministas , ela me olhou e disse que eu poderia “superar” com hipnose, apagando todo esse “vitimismo negro”, porque, segundo ela, eu “nem era tão negra assim”. Como se a minha vivência pudesse ser relativizada ou apagada pela forma como ela me percebia. Foi nesse momento que entendi: ela não via a minha humanidade inteira, mas apenas a parte que lhe servia.

Sartre, por sua vez, adverte que “o olhar do outro pode nos aprisionar”; e não há prisão mais silenciosa que aquela construída pelas expectativas e rótulos que nos são impostos.Só  então percebi, o cuidado genuíno é aquele que sobrevive ao intervalo.

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